Aprendi cedo em biologia sobre os ciclos circadianos. É o ciclo circadiano que permite que nosso corpo durma a noite e esteja acordado durante o dia. É ele que diz pro nosso corpo que horas são. É ele que nos deixa perturbados quando fazemos uma longa viagem e atravessamos os meridianos numa velocidade maior do que aquela já conhecida por nosso corpo. Quando o ciclo circadiano é perturbado tudo fica esquisito e precismos de alguns dias para nos adaptarmos a nova realidade das horas.
Tenho pensado muito sobre os ciclos, e mais recentemente tenho perecbido que há algo além dos ciclos que determinam as horas diárias pro nosso corpo. São cilcos maiores que se extendem além das meras 24 horas de um dia completo. É ciclo da semana, dos meses e das estações. EStes ciclos me parecem ter um significado maior, ainda inexplorado e que nos servem de ancoras da alma, ou de nossa psique.
O mais difícil da vida em Israel, por enquanto, não é minha falta de palavras e nem o ar seco. Não é o vento algumas vezes desértico e nem a chuva fria repentina. O mais difícil é ter que fazer de conta que domingo é segunda-feira! Domingo aqui é um da normal como todos os outros. Todo mundo tem trabalho, as escolas funcionam normalmente e o país segue inderente à pausa que se faz na maioria do resto do mundo. Domingo aqui é o sábado que se revela um domingo violento onde nada funciona, nem mesmo o transporte público. O país pára literalmente, indeferente ao movimento crescente que se observa neste dia no resto do mundo.
Meu corpo não entende como, sendo domingo, Maribel e Shika precisam levantar cedo, e eu também, para começar um dia que se inicia as 7 da manhã.
As estações também parecem ter seu significado. Somente depois de termos vivido uns 3 anos num novo lugar começamos a nos sentir adaptados e a reconhecer tal lugar como lar. Acredito que isso nada tenha que ver com as particularidades do lugar em questão mas com a certeza e a familiaridade que se começa a sentir num novo lugar depois de termos testemunhado as mudanças de estações por pelo menos uns 3 ciclos e de já sermos capazes de reconhce-las ou antecipá-las. Neste sentido Israel me parece muito familiar porque me lembra demais os ciclos nos EStados Unidos e meu aniverseario, de novo, volta a cair no verão enquanto por muitos anos, quando criança, eu queria fazer festa na piscina e minha mãe me lembrava que meu aniverseario caia no inverno. Carioca sim, mas mesmo assim ainda inverno.
A maioria das pessoas precisam destas âncoras para se sentirem em casa, precisam dos ciclos em total harmonia para que ss sintam pertecendo. Eu nesse ponto me sinto muito perdida. E talvez seja exatamente a falta que eles me fazem que me levam a pensar tanto neles.
Meu marido é um homem de ciclos e rotinas. Na sexta-feira compra pão especial, a hala, e pega o jornal gratuito que é distribuido no supermercado. Ele tem hora pra tudo. Pra acordar, pra tomar café, pra comer, pra falar ao telefone e até pra cagar. Se a hora passa ele simplesmente deixa pro dia seguinte. Diz que já ficou muito tarde.
Por isso muita gente jamais consegue sair do mesmo lugar. Dizem, de forma simplista, que já estão acostumados do jeito que vivem.
Eu não me acostumo com nada. Porque quando perecebo que estou me ficando eu reinvento a vida a parto para uma outra nova. Mas talvez com a idade a necessidade dos ciclos, o desejo por uma rotina, começam a se fazer presentes em mim.
Talvez isso tudo fique mais evidente ao lado das meninas por causa da escola. Não há nada que possa dar mais estrutura a todos os indíviduos de uma família do que a rotina tirana escolar. O dia sempre começa e termina na mesma hora e ao longo dele há vários marcos. A hora do almoço, hora do banho e hora do jantar. Por isso o fim de semena, mesmo pra quem tem uma vida tão flexível como a minha, se torna um descanço. Não há escola no fim de semana.
Mas quando sou requisitada a deslocar o principal dia do meu fim de semana, o tal do domingo, fica tudo bagunçado. Vai explicar pro meu corpo que um dos únicos marcos ainda possíveis na minha existência precisa ser re-ajustado...Que eu preciso mexer nos dias da semana como fossem cartas de baralho. Que preciso trocar a coringa de lugar se eu ainda quiser ter uma canastra. Sinto como se me tivessem roubado um feriado por muito aguardado.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
A delícia e o prazer de ser brasileira
As 7 horas da manhã chegou em nossa casa a nova a moça da faxina. Veio com um lenço amarrado na cabeça que cobria o cabelo totalmente. E o olhar temeroso ao ver os cães não deixou dúvida. Nossa faxineira é árabe. Os árabes tem muito medo dos cães judeus. Isso tem razões históricas. Cachorro sente cheiro de medo, que deve ser o cheiro que as descargas de adrenalina devem produzir e que muito provavelmente são perceptíveis apenas ao nariz canino. Não preciso aqui gastar muitos bits pra explicar que as relações judaico-árabes nunca foram das melhores, por motivos igualmente históricos e os quais ninguém já nem sabe mais aonde começam ou acabam. São todos inocentes e culpados ao mesmo tempo. E os árabes israelenses, aqueles que nasceram em Israel e são cidadães israelenses que assim como os judeus compartilham o país onde vivem, tem uma constante relação de amor e ódio com o país. Vivem, sem sombra de dúvidas, em condições melhores do que os árabes que vivem em países árabes. O acesso a educação e saúde é gratuíto a todos no país. Mas vivem num país que tem dificuldades em reconhecer como pátria. Mas com certeza não gostariam de estar em nenhum outro lugar senão aqui. Enfim, é o conflito que atinge também o dia a dia das pessoas comuns e não apenas as guerras e as frustradas tentativas diplomáticas de se buscar uma solução pra região.
Pois ela, que tem um nome que me parece impronunciável e que eu nem me atreveria a tentar soletrar, me pareceu tímida e certamente acuada. Faz uma faxina que não se compara à faxina da Angélica, a faxineira da Guatemala que trabalhava na minha casa nos EUA, a Lu ou a Soely no Brasil. A faxina dela é de guerrilha!
Pois eu estava lá embaixo tentando explicar pra Bebel que ela não podia entrar em casa agora porque a casa estava limpíssima e ela tava com as patas sujas. Expliquei, dei osso, fiz carinho até que ela se deitou no quintal da frente, para admiração de nossos vizinhos ingleses.
Foi então que subi pro segundo andar pra continuar trabalhando e tive que interagir com ela, a faxineira, pela primeira vez e tendo pra isso apenas o meu vocabulário hebraico super limitado (todos os árabes tb falam hebraico). Como deixá-la menos acuada e mais tranquila em minha presença se mal posso me comunicar com ela?
Lembrei do meu maior trunfo, que não é só meu mas de tantos outros milhões de indivíduos. Sou brasileira! Sou do país mais querido do mundo. Sou da terra que sempre abre sorrisos nos rostos de qualquer um de qualquer nacionalidade. Não brigo, não implico, não me acho, não sou besta. Sou brasileira.
Não precisei de muitas palavras pra explicar pra ela que eu não sabia ainda falar hebraico e que eu...eu sou brasileira! Falei pra ela. Foi ai que conheci o sorriso dela. Brasilai, ela perguntou? Ken Brasilai, eu disse. Ela sorrindo me disse: meu filho ama o futebol do Brasil! Ele tem a camida e o short do Brasil!
É mesmo? E quantos anos tem seu filho? eu perguntei. Nove; ela disse ainda satisfeita com a novidade.
Hoje ela vai chegar em casa e ao invés de dizer que fez faxina na casa de um judeu, vai contar satisfeita ao filho que fez faxina na casa de uma brasileira. A brasileira é judia, mas isso provavelmente se torna irrelevante diante da paixão verde-amarela!
Da próxima vez trago um presente do Brasil pro filho dela. Afinal, não é só de futebol que se alimenta uma paixão, mas também do calor, da simpatia e do carinho de um povo.
Eu sou brasileira!
Pois ela, que tem um nome que me parece impronunciável e que eu nem me atreveria a tentar soletrar, me pareceu tímida e certamente acuada. Faz uma faxina que não se compara à faxina da Angélica, a faxineira da Guatemala que trabalhava na minha casa nos EUA, a Lu ou a Soely no Brasil. A faxina dela é de guerrilha!
Pois eu estava lá embaixo tentando explicar pra Bebel que ela não podia entrar em casa agora porque a casa estava limpíssima e ela tava com as patas sujas. Expliquei, dei osso, fiz carinho até que ela se deitou no quintal da frente, para admiração de nossos vizinhos ingleses.
Foi então que subi pro segundo andar pra continuar trabalhando e tive que interagir com ela, a faxineira, pela primeira vez e tendo pra isso apenas o meu vocabulário hebraico super limitado (todos os árabes tb falam hebraico). Como deixá-la menos acuada e mais tranquila em minha presença se mal posso me comunicar com ela?
Lembrei do meu maior trunfo, que não é só meu mas de tantos outros milhões de indivíduos. Sou brasileira! Sou do país mais querido do mundo. Sou da terra que sempre abre sorrisos nos rostos de qualquer um de qualquer nacionalidade. Não brigo, não implico, não me acho, não sou besta. Sou brasileira.
Não precisei de muitas palavras pra explicar pra ela que eu não sabia ainda falar hebraico e que eu...eu sou brasileira! Falei pra ela. Foi ai que conheci o sorriso dela. Brasilai, ela perguntou? Ken Brasilai, eu disse. Ela sorrindo me disse: meu filho ama o futebol do Brasil! Ele tem a camida e o short do Brasil!
É mesmo? E quantos anos tem seu filho? eu perguntei. Nove; ela disse ainda satisfeita com a novidade.
Hoje ela vai chegar em casa e ao invés de dizer que fez faxina na casa de um judeu, vai contar satisfeita ao filho que fez faxina na casa de uma brasileira. A brasileira é judia, mas isso provavelmente se torna irrelevante diante da paixão verde-amarela!
Da próxima vez trago um presente do Brasil pro filho dela. Afinal, não é só de futebol que se alimenta uma paixão, mas também do calor, da simpatia e do carinho de um povo.
Eu sou brasileira!
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Hello Tel-Aviv, Au Au!
Há três dias Bebel e Moby pousaram em Tel-Aviv. Foi um período de muito trabalho, desde o dia em que decidi, ainda em Israel, em Janeiro, que eu mudaria a minha vida pra cá. As decepções que tive na época e a sensação de desamparo me foram necessárias para que eu tomasse uma atitude que pensava não ser capaz. Eu ...não capaz de alguma coisa quando enfio na cabeça???...té parece! Não sou refém né...Acho que isso já deixei claro!
Meu marido veio me encontrar no meio do mês passado no Brasil e foi de Tel-Aviv direto ao meu encontro na cidade paulista do Aedes, onde eu dava um workshop. No dia seguinte voltamos juntos pro Rio de Janeiro e trabalhamos muito até finalizarmos com tudo. Entreguei o apartamento de Itaipava, que havia alugado em Novembro! Vendi, dei, mudei, emprestei, perdi, quebrei, tropeçei, ou jogeui no lixo todas as coisas que tinha. Tudo coisa né? Fizemos uma pequena reforma no ap do Posto 6 e no domingo passado fomos de carro até um sítio perto do aeroporto de Guarulhos onde ficamos os 4 (eu, meu marido, Moby e Bebel) até terça feira. Na terça feira chegamos esbaforidos no aeroporto, atrasados e eu super nervosa. Enfiei o "remdinho" dos cachorros guela abaixo..30 gotas pra cada um, botamos cada um em sua caixa de R$ 500,00 e seja o que Deus Quiser!
No meio do voo fui ao banheiro na ponta de trás do avião e escutei Moby latindo. Decidi que eu também devia tomar o "meu" remedinho. Um comprimidinho pequinininho marromzinho e puft. Bom dia and welcome to Tel-Aviv!
Ele passou na frente, a fila dos Israelenses estava pequena, eu fiquei lá no meio dos russos, segurando meu passaporte brasileiro e com o coração na mão. De repente vejo lá de trás, por dentre as portas, Moby e Bebel andando na coleira. Graças a Deus! Eles estão vivos!
Fui liberada pela soldadinha, que agora me libera assim que mostro a certidão de casamento. O que um papelzinho não faz, hein? Sai correndo e Bebel se soltou e veio correndo em minha direção. Moby ainda ficou tonto tentando entender onde, como e principalmente porque.
Passamos pela alfandega onde literalmente passaram a mão nos dois e nem quiseram olhar coisa nenhuma. Welcome to Israel eles falaram. Já no saguão do aeroporto Ben-Gurion Bebel sem cerimõnia se abaixou e fez o maior xixi do mundo. Eu tava preparada, já carregava comigo aquele cobertorzinho de avião exatamente prevendo que isso poderia acontecer. Depois veio o coco. Esse foi fácil, eu tava com o saco a postos.
Como tantos outros judeus...Moby e Bebel viajaram o mundo e agora que já estão ficando com mais idade (9 e 10 anos) vieram se aposentar na terra prometida.
Estamos todos bem!
Meu marido veio me encontrar no meio do mês passado no Brasil e foi de Tel-Aviv direto ao meu encontro na cidade paulista do Aedes, onde eu dava um workshop. No dia seguinte voltamos juntos pro Rio de Janeiro e trabalhamos muito até finalizarmos com tudo. Entreguei o apartamento de Itaipava, que havia alugado em Novembro! Vendi, dei, mudei, emprestei, perdi, quebrei, tropeçei, ou jogeui no lixo todas as coisas que tinha. Tudo coisa né? Fizemos uma pequena reforma no ap do Posto 6 e no domingo passado fomos de carro até um sítio perto do aeroporto de Guarulhos onde ficamos os 4 (eu, meu marido, Moby e Bebel) até terça feira. Na terça feira chegamos esbaforidos no aeroporto, atrasados e eu super nervosa. Enfiei o "remdinho" dos cachorros guela abaixo..30 gotas pra cada um, botamos cada um em sua caixa de R$ 500,00 e seja o que Deus Quiser!
No meio do voo fui ao banheiro na ponta de trás do avião e escutei Moby latindo. Decidi que eu também devia tomar o "meu" remedinho. Um comprimidinho pequinininho marromzinho e puft. Bom dia and welcome to Tel-Aviv!
Ele passou na frente, a fila dos Israelenses estava pequena, eu fiquei lá no meio dos russos, segurando meu passaporte brasileiro e com o coração na mão. De repente vejo lá de trás, por dentre as portas, Moby e Bebel andando na coleira. Graças a Deus! Eles estão vivos!
Fui liberada pela soldadinha, que agora me libera assim que mostro a certidão de casamento. O que um papelzinho não faz, hein? Sai correndo e Bebel se soltou e veio correndo em minha direção. Moby ainda ficou tonto tentando entender onde, como e principalmente porque.
Passamos pela alfandega onde literalmente passaram a mão nos dois e nem quiseram olhar coisa nenhuma. Welcome to Israel eles falaram. Já no saguão do aeroporto Ben-Gurion Bebel sem cerimõnia se abaixou e fez o maior xixi do mundo. Eu tava preparada, já carregava comigo aquele cobertorzinho de avião exatamente prevendo que isso poderia acontecer. Depois veio o coco. Esse foi fácil, eu tava com o saco a postos.
Como tantos outros judeus...Moby e Bebel viajaram o mundo e agora que já estão ficando com mais idade (9 e 10 anos) vieram se aposentar na terra prometida.
Estamos todos bem!
Assinar:
Comentários (Atom)