quarta-feira, 27 de abril de 2011

A delícia e o prazer de ser brasileira

As 7 horas da manhã chegou em nossa casa a nova a moça da faxina. Veio com um lenço amarrado na cabeça que cobria o cabelo totalmente. E o olhar temeroso ao ver os cães não deixou dúvida. Nossa faxineira é árabe. Os árabes tem muito medo dos cães judeus. Isso tem razões históricas. Cachorro sente cheiro de medo, que deve ser o cheiro que as descargas de adrenalina devem produzir e que muito provavelmente são perceptíveis apenas ao nariz canino. Não preciso aqui gastar muitos bits pra explicar que as relações judaico-árabes nunca foram das melhores, por motivos igualmente históricos e os quais ninguém já nem sabe mais aonde começam ou acabam. São todos inocentes e culpados ao mesmo tempo. E os árabes israelenses, aqueles que nasceram em Israel e são cidadães israelenses que assim como os judeus compartilham o país onde vivem, tem uma constante relação de amor e ódio com o país. Vivem, sem sombra de dúvidas, em condições melhores do que os árabes que vivem em países árabes. O acesso a educação e saúde é gratuíto a todos no país. Mas vivem num país que tem dificuldades em reconhecer como pátria. Mas com certeza não gostariam de estar em nenhum outro lugar senão aqui. Enfim, é o conflito que atinge também o dia a dia das pessoas comuns e não apenas as guerras e as frustradas tentativas diplomáticas de se buscar uma solução pra região.
Pois ela, que tem um nome que me parece impronunciável e que eu nem me atreveria a tentar soletrar, me pareceu tímida e certamente acuada. Faz uma faxina que não se compara à faxina da Angélica, a faxineira da Guatemala que trabalhava na minha casa nos EUA, a Lu ou a Soely no Brasil. A faxina dela é de guerrilha!
Pois eu estava lá embaixo tentando explicar pra Bebel que ela não podia entrar em casa agora porque a casa estava limpíssima e ela tava com as patas sujas. Expliquei, dei osso, fiz carinho até que ela se deitou no quintal da frente, para admiração de nossos vizinhos ingleses.
Foi então que subi pro segundo andar pra continuar trabalhando e tive que interagir com ela, a faxineira, pela primeira vez e tendo pra isso apenas o meu vocabulário hebraico super limitado (todos os árabes tb falam hebraico). Como deixá-la menos acuada e mais tranquila em minha presença se mal posso me comunicar com ela?
Lembrei do meu maior trunfo, que não é só meu mas de tantos outros milhões de indivíduos. Sou brasileira! Sou do país mais querido do mundo. Sou da terra que sempre abre sorrisos nos rostos de qualquer um de qualquer nacionalidade. Não brigo, não implico, não me acho, não sou besta. Sou brasileira.
Não precisei de muitas palavras pra explicar pra ela que eu não sabia ainda falar hebraico e que eu...eu sou brasileira! Falei pra ela. Foi ai que conheci o sorriso dela. Brasilai, ela perguntou? Ken Brasilai, eu disse. Ela sorrindo me disse: meu filho ama o futebol do Brasil! Ele tem a camida e o short do Brasil!
É mesmo? E quantos anos tem seu filho? eu perguntei. Nove; ela disse ainda satisfeita com a novidade.
Hoje ela vai chegar em casa e ao invés de dizer que fez faxina na casa de um judeu, vai contar satisfeita ao filho que fez faxina na casa de uma brasileira. A brasileira é judia, mas isso provavelmente se torna irrelevante diante da paixão verde-amarela!
Da próxima vez trago um presente do Brasil pro filho dela. Afinal, não é só de futebol que se alimenta uma paixão, mas também do calor, da simpatia e do carinho de um povo.
Eu sou brasileira!

Um comentário:

  1. não sou brasileira. eu brigo, implico, me acho e sou besta.

    =P

    emocionante seu texto, bebel. pra variar.

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